"Em toda a infância houve um jardim. Isto é coisa de poetas."

Augustina Bessa-Luís

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sábado, 11 de dezembro de 2010

"Vamos poupar para oferecer um presente a um amigo" Parte II

Chegou o momento de contar as moedas que cada criança tinha conseguido poupar no seu mealheiro e ir procurar um presente para oferecer ao amigo, ou à amiga.

O objectivo principal deste projecto não era o presente em si, apesar de ser o que de imediato mais impacto teria na criança e de termos elaborado uma listagem dos presentes que cada uma gostaria de receber. O objectivo principal deste projecto era o envolvimento da criança no acto de “poupar” e perceber que não pode gastar mais do que a quantia que tem. Era importante que a criança percebesse que teria de escolher um presente que “coubesse” dentro do valor das moedas que conseguiu juntar.
Inicialmente esta actividade passava por partilharmos na sala do JI toda a sua dinâmica, mas sem Assistente Operacional, a tempo inteiro, que me pudesse auxiliar no acompanhamento do grupo de 16 crianças, tornou-se bastante complicado organizar uma visita a um espaço onde as crianças pudessem adquirir o que pretendiam oferecer. Por isso os Pais acompanharam as crianças nessa tarefa no fim-de-semana passado, e na segunda-feira esta aventura ocupou grande parte da “Hora das novidades”. 
Decidimos fazer a troca de presentes na passada quinta-feira, pois o Vitor, um dos maiores entusiastas desta actividade, foi internado ontem para fazer uma operação ao nariz.

Na segunda-feira algumas crianças já trouxeram o presente que tinham comprado para o/a amigo/a. O André tinha ido com a mãe à Casa das Prendas comprar a prenda para a Francisca e até viu lá o presente que o Afonso gostava de receber e que eu teria de procurar.  
- No Modelo tem lá uma caixa cheia de carrinhos do Cars, mas acho que não encontras lá o carrinho roxo que o Afonso quer, pois eu meti a mão até ao fundo da caixa e não encontrei. – disse o André que também se preocupou com os presentes de outros amigos.

Eu também não consegui encontrar o carrinho dos “maus” que o Afonso queria e entre um outro carrinho da colecção ou uma caixa com “muitos” carrinhos, o Afonso preferiu a segunda opção.

Ao Vitor ainda lhe sobraram algumas moedas depois de ter comprado o carrinho que o Gonçalo gostava de ter e decidiu iniciar outra poupança…desta vez para um candeeiro para o seu quarto.

O João também foi com a mãe comprar o presente do Pedro e, depois de contar as moedas que juntou, a mãe mostrou-lhe qual o número pelo qual o preço do presente que ele procurava podia começar. Depois de comprar o presente para o amigo anunciou à mãe que a partir de agora vai poupar para comprar tijolos para a casa que os Pais querem fazer sair do projecto e construir pertinho da casa da avó.

A Ana trouxe o presente da Leonor na segunda-feira. A Leonor apesar de também ter ido às compras com os Pais no fim-de-semana só o trouxe na terça-feira. Logo pela manhã a Ana esperava ansiosamente a Leonor e quando a viu entrar na sala com um saco na mão deu-lhe um abraço do “tamanho do Mundo”.

O André ficou preocupado quando a Francisca D. disse que já tinha comprado uma boneca.  
-“Mas eu não pedi uma boneca!!!”
Na quinta-feira suspirou de alívio, e de alegria também, quando descobriu que afinal a Francisca não se tinha enganado na prenda…Não era o “Rei Faísca”, mas era um “Mini” vermelho e telecomandado…

A Jéssica foi às compras com os Pais e como a prenda era “barata” o pai ofereceu-se para pagar se ela prometesse que iria continuar a poupar no seu mealheiro. 

O Pedro também não quis usar as suas moedas e conseguiu convencer a mãe a “patrocinar” o “tractor pequenino” que o João tinha pedido.

Algumas crianças não trouxeram o presente desejado pelo/a amigo/a porque ou não o encontraram, ou porque era “caro”, substituindo-o por outro que também acharam que lhes iria agradar. O Gonçalo aconselhou-os a ir à “Loja dos Chineses” que “lá os brinquedos não são assim tão caros”.

Mas para além da matemática das moedas foi também possível trabalhar outros conteúdos desta área. O embrulho triangular que o Pedro trouxe, serviu de mote para a discussão sobre algumas formas geométricas e fizemos correspondências matemáticas entre pares e presentes.

Foi interessante ver a expressão de orgulho com que as crianças chegavam com os presentes para os amigos e a expressão de alegria que estes demonstravam por não terem sido esquecidos.
Interessante foi também o debate que o tamanho dos embrulhos promoveu. O que devemos valorizar quando nos oferecem um presente é o carinho com que os amigos o escolheram para nós, mesmo que não seja exactamente aquilo que mais gostaríamos de ter recebido.
E foi isso que aconteceu. Mesmo algumas crianças não tendo recebido exactamente o que tinham pedido, o brilho da alegria estava estampado em todos os rostos … e a Margarida não resistiu a colocar no cabelo um dos “arcos” que recebeu.

Receber um presente de um amigo é mesmo algo especial…e oferecer um presente a um amigo também…

E estes presentes são tão especiais que ontem várias crianças trouxeram o que receberam para mostrar aos amigos como funcionam. A Ana Miguel trouxe a bolsa que recebeu da Vera e a Vera já guardou moedas na carteira das princesas que a Ana lhe ofereceu. O Pedro mostrou os sons que o cavalo “faz” e até jogamos o “4 em linha” que a Jéssica recebeu da Joana. A Beatriz já escovou o cabelo com a "escova de princesa" que recebeu da dona Alice e a Francisca C. gostou tanto do presente que a Margarida lhe ofereceu que trazia o “aquece-orelhas” debaixo do gorro com que chegou ao JI pela manhã.
Eu adorei a planta que o Afonso me ofereceu e a dona Alice estava mesmo a precisar de umas chávenas para o café, que a Beatriz comprou com o dinheiro dos ovos que vendeu :o)

Nota: Não há fotografias de todos os presenteados e presentes devido a problemas técnicos :o)


domingo, 7 de novembro de 2010

"Vamos poupar para oferecer um presente a um amigo"

Tudo começou durante uma conversa matinal, quando o Gonçalo já chegou à sala com as calças sujas nos joelhos, depois de uns pontapés na bola com os amigos na erva humedecida pelo orvalho. Esta é uma situação que se tem repetido nos últimos dias e a Jéssica demonstrou alguma preocupação quanto aos gastos que a mãe do Gonçalo terá de fazer se ele continuar a sujar as calças repetidamente.
A partir daqui surgiu uma conversa sobre gastos e poupanças. Afinal para que serve o dinheiro e como pode ser ganho?
Como é que os Pais ganham dinheiro e para que o usam, foram algumas das questões discutidas. Os Pais não gastam só dinheiro quando vão ao supermercado, ou lhes compram um presente. Os Pais gastam dinheiro quando em casa se abre uma torneira para encher um copo de água, se acende a luz no quarto ou se vai dar um passeio de carro. O Afonso quis saber como é que eu ganho dinheiro e demonstraram um misto de espanto e satisfação quando lhes disse que ganhava dinheiro quando “BRINCAVA” com eles…
As palavras “crise” e “poupar”, actualmente, fazem parte das conversas familiares. Estes conceitos são também discutidos pelas crianças e desde muito pequenas é importante explicar-lhes a necessidade da poupança e ajudá-las a perceber que devem ter algum dinheiro guardado para alguma emergência (como por exemplo o arranjo ou a substituição de um brinquedo estragado) e devem também poupar dinheiro para, mais tarde, comprarem algo que necessitam ou desejam.
A Jéssica lembrou que quando as pessoas não têm dinheiro podem ir ao Banco. Expliquei-lhes que o Banco só nos dá dinheiro se antes lá tivermos posto algum na “nossas caixinha” … E que por vezes nos pode emprestar, mas que depois temos de devolver … e como foi emprestado, quando devolvemos, o Banco pede sempre um “bocadinho” mais do que aquele que empresta.
Geralmente, quando encontro algo “baratinho” que acho que, durante o ano, pode ser útil em alguma actividade compro e espero uma oportunidade para utilizar. Foi o que aconteceu com os mealheiros que já há algumas semanas estavam guardados numa caixa para um eventual projecto de poupança.
As crianças criaram a oportunidade, por isso bastou “abrir a caixa” e as coisas foram, naturalmente, acontecendo.
Todos têm em casa um mealheiro (ou um “migalheiro” como a maioria lhe chama…ou um “peteiro” como algumas avós o apelidaram) e todos têm moedas … ou quase todos, pois o Afonso diz que tem “zero moedas”.
Inicialmente a ideia era poupar para comprarmos um brinquedo, no Natal, para oferecer a uma criança que de outra forma não o poderia ter. Mas esta noção de ajudar alguém que as crianças não conhecem, nesta faixa etária, é um pouco abstracto. E o Vitor disse:
-Eu gostava era de juntar para comprar um presente para mim…
-E o que compravas tu? – perguntei-lhe.
-Um Prorshe…de verdade.
A dona Alice que se tinha juntado a nós nesta conversa, quando veio contar o número de crianças que almoçariam nesse dia na Cantina, disse:
-Ó Vitor e se poupasses para dar um presente a um amigo?
Bingo!!! A dona Alice tinha dado um passo importante para a finalidade que se poderia dar ao dinheiro que cada um irá poupar.
A ideia agradou de imediato ao Vitor que escolheu o Gonçalo como o amigo a quem vai oferecer um presente no Natal. Como havia mais dois mealheiros, eu e a dona Alice também iremos entrar no “Jogo da Poupança” e o Afonso fez recair a sua escolha em mim. As escolhas foram-se sucedendo de uma forma espontânea...
Estávamos ainda no processo das escolhas e o Vitor perguntou ao Gonçalo qual a prenda que ele gostava de ter:
- Um Faísca Mcqueen azul. – respondeu o Gonçalo.
-Mas isso é muito “caríssimo”!!! - disse o Vitor já a pensar numa forma de poupar – No sábado vou arrumar o meu quarto e quando a minha mãe acordar vai-me dar duas moedas.
O Afonso pensa oferecer-me uma boneca ou uma Hello Kitty“É disso que as meninas gostam”, disse ele.
Na sexta-feira lá foram os mealheiros para casa e as “regras” deste jogo, juntamente com algumas dicas... Ver aqui e aqui...
As poupanças poderão ser feitas a partir de “pagamento” de pequenas tarefas que as crianças possam executar para ajudar os Pais, ou por troca de algo que elas abdiquem, como por exemplo uma chiclete quando vão ao Café ou de uma “bola” da máquina, guardando no mealheiro essa moeda. 
Uma das regras chave deste “jogo” é que nenhuma criança poderá ganhar uma moeda se não a merecer realmente.
Mais perto do Natal, cada criança deverá trazer o seu mealheiro (cujas chaves ficarão na sala do JI) para que faça a contagem das moedas que economizou. Depois de contas feitas tentaremos ir a uma loja em que cada uma terá, consoante as suas poupanças, de escolher um brinquedo para oferecer ao amigo ou amiga.


Nota: Pais, vamos tentar que no segundo período cada criança poupe para si e que no terceiro período cada uma poupe para uma causa solidária.